Setembro – o mês das folhas amarelecidas e em que se sentem os dias a encolher ao sabor do chamamento das brisas outonais – marca não apenas (para muitos) o final do tempo sem relógio no pulso nem cronómetros asfixiantes, dos petiscos e do pôr-do-sol testemunhado à beira-mar (ou contemplado do cimo de uma serra), da roupa leve e fresca, das conchas, dos ouriços e das estrelas-do-mar. Setembro marca, também, o regresso à escola – àqueles edifícios delimitados por muros e paredes; apesar de, por aqui, se defender que a vida é das melhores escolas e que tanto (ou mais) se aprende em contextos informais e não-formais, desenraizados desses muros e dessas paredes e deles geneticamente afastados.
E nesta fase de uma transição que se repete ciclicamente é também altura de recordar um dos filmes mais emblemáticos – um daqueles que, de forma incansável, a memória se encarrega de evocar e trazer para o “agora”, ainda que transformado em simples excertos e imagens soltas (como as folhas amarelecidas, mas sempre prenúncio daquela que será, breve, a esperança primaveril): “O Clube dos Poetas Mortos”. Mais do que apenas “passar o tempo”, este é um dos (muitos) filmes que tem o poder de inspirar, por ser um ícone verdadeiramente inquestionável. Na realidade, algumas produções nacionais e internacionais levam-nos facilmente para caminhos que tendem a questionar o modelo tradicional de ensino e convidam-nos a uma reflexão sobre o papel do professor e do aluno.
Hoje é dia de preparar uma taça de pipocas… e recordar o momento em que John Keating chega a uma escola sobejamente conhecida pelo seu rigor e pelos seus valores que se traduzem em quatro pilares fundamentais: a tradição, a honra, a disciplina e a excelência. No entanto, é também este professor que recorre a métodos pouco ortodoxos para se aproximar dos seus alunos. E, de facto, será com a sua ajuda que alguns aprendem a não abdicar dos seus sonhos e a aproveitar cada dia, em consonância com o famoso “Carpe Diem” – um pouco à semelhança do que Ricardo Reis defendia quando nos aconselhava “colhe o dia, porque és ele”, através da sua poesia revestida de harmonia, de prazer, de serenidade e de equilíbrio, deixando-se influenciar pelos ideais filosóficos do epicurismo e do estoicismo.
Hoje é ainda dia de relembrar o momento em que aquele professor lançou aos seus alunos o desafio de rasgar as primeiras páginas de um manual (porque embora os livros sejam peças essenciais, muito do que se aprende não está escrito neles) ou quando os convidou a subir à sua mesa para contemplar o espaço de sempre de uma perspetiva diferente (porque quando se “lê” é importante não considerar apenas o que quem escreveu pensa sobre o tema, mas, sobretudo, o que cada um de nós pensa).
Que todos os alunos (no fundo, cada um de nós – que também o somos ao longo, e em todos os espaços, da nossa vida) tenham capacidade para “subir à mesa” e contemplar a vida de outros prismas (tão válidos como os considerados tradicionais) e que alimentem, dia após dia, o genuíno “Carpe Diem” através da capacidade para aprender e, sobretudo, para aprender a aprender. Como uma sede incessante. Continuamente.