Hoje, uma amiga faz 50 anos. Ela não está propriamente encantada com a ideia. Eu, que já vou a caminho dos 52, acho cada vez mais bonito o tempo passar. Gosto de observar. As pessoas, as mudanças, os filhos a crescer, as rugas que aparecem depois de tantas gargalhadas, as histórias que vamos acumulando. Talvez porque, com o tempo, começamos a perceber que não há idade perfeita, corpo perfeito, vida perfeita ou sequer uma maneira certa de viver. Há a nossa. E a oportunidade de a viver o melhor que conseguirmos.
Passamos metade da vida a tentar corresponder a padrões que alguém inventou e a outra metade a perceber que, afinal, eram só isso: padrões, aparências ou aquilo que lhes quisermos chamar. E talvez seja essa uma das coisas que gostava de deixar aos meus filhos e a quem me rodeia: a noção de que não precisamos de aceitar aquilo que nos faz mal. Podemos afastar-nos, dizer não, mudar de caminho. Amar os outros não significa esquecermo-nos de nós próprios. Aliás, somos a primeira pessoa que devemos aprender a amar. E também podemos decidir interromper aquilo que nos fez sofrer. Um filho que poupamos a uma dor que carregámos é uma das formas mais bonitas de quebrar uma corrente. Não repetir o mal só porque foi aquilo que conhecemos. Escolher fazer diferente. Parece simples. E, no entanto, vivemos rodeados de violência, agressividade, julgamentos, humilhações e de uma estranha necessidade de cada um provar que é melhor, mais certo ou mais importante do que o outro. Continuo a não perceber para quê. Talvez ainda tenha 16 anos. Talvez continue a viver numa espécie de utopia onde acredito que podíamos simplesmente tentar ser melhores. Não perfeitos, melhores.
Respeitar. Não magoar. Não prejudicar. Saber ouvir. Aceitar uma crítica. Pedir desculpa. Rir de nós próprios. Não fingir. Dizer a verdade. Fazer o bem quando podemos. E também lutar. Porque fazer o bem não significa ficar calado perante uma injustiça. Às vezes, fazer o bem é não aceitar. É denunciar. É defender quem não consegue defender-se. É ajudar a colocar no devido lugar quem se convenceu de que podia passar por cima dos outros. É deixar uma situação um pouco mais justa do que a encontrámos.
Não sei se isso é karma, justiça, consequência ou simplesmente a vida a fazer o seu caminho. Sei que prefiro acreditar que aquilo que fazemos conta. E talvez seja também por isso que não quero passar pela vida a fingir. Fingir que está tudo bem quando não está, fingir sentimentos, relações, valores ou felicidades que não existem. Deitar fora aquilo que parece para ficar com aquilo que é. Talvez a felicidade seja muito mais simples do que a vendemos. Gostar de quem somos, aceitar aquilo que somos e continuar a tentar melhorar. Ter pessoas que amamos. Rir. Aproveitar. Não perder tempo com aquilo que nos destrói.
Porque, no fim, não levamos a casa, o dinheiro, o carro, os objectos, os títulos ou sequer as discussões em que tínhamos tanta certeza de ter razão. Mas podemos deixar muito. Uma memória. Uma gargalhada. Uma luta. Uma injustiça reparada. Um filho que aprendeu a não repetir aquilo que lhe fez mal. Alguém que se sentiu menos sozinho porque estivemos lá. Talvez seja essa a nossa verdadeira passagem por aqui. Não deixar tudo perfeito. Deixar alguma coisa melhor. E continuar a acreditar que é possível.
Kari Guergous